A mesma história

by Luciano

(Publicado no Diário Económico, 13/10/2011)

A grande notícia dos últimos dias foi que a França se juntou ao grupo de países em busca de auxílio financeiro internacional. Claro que não o fez de forma declarada. Como poderia, esse orgulhoso país tão bem inserido no centro europeu, tão diferente dos lamentáveis periféricos? Em vez disso, usou uma porta travessa: propôs a recapitalização dos bancos franceses através do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Como já se tornou hábito, apareceu logo a seguir a Alemanha a dizer que não. A Alemanha continua, muito compreensivelmente, a fugir como o diabo da cruz de qualquer compromisso de transferência incondicional de pagamentos. Bem sabe ela que o bolso de onde sairia a transferência seria o seu. Por isso quer responsabilizações nacionais.

É evidente que a responsabilização nacional obrigaria o Tesouro francês a assumir os problemas de liquidez, capitalização e eventual solvência da banca francesa, aumentando o défice orçamental e a dívida pública. A partir daqui, o estatuto triplo-A da dívida (pública e muita privada) do país estaria em causa, comprometendo não só a capacidade da França para enfrentar a crise como também a capacidade da Europa no seu todo, já que a França (em conjunto com a Alemanha) é imprescindível para isso. Não admira, assim, que a magnífica parelha franco-alemã que nos últimos tempos tanto espaço ocupa nas nossas notícias aparecesse a propor o enésimo “plano definitivo” para “salvar o euro e a Europa” (agora a sério: em quantos vamos já?). É provável que o resultado seja o mesmo dos anteriores, até porque o primeiro passo da decisão foi adiar a decisão por mais uma semana.

Seja como for, nesta infernal maquinaria de destruição maciça em que se transformou a União Económica e Monetária (vulgo, o euro), o caos começa a chegar ao próprio centro de tudo, como era aliás previsível. Os problemas da banca europeia são a outra face dos problemas ditos de dívida periférica. E os bancos europeus começam agora a apresentar todas as suas fraquezas porque os métodos de presumível salvação dos periféricos em nada têm servido para evitar o desastre. Os planos de “salvamento” e a recapitalização da banca através do FEEF são duas formas simétricas de tentar o mesmo objectivo. Mas de pouco servirão enquanto não forem assumidas com clareza as duas únicas soluções estáveis para tudo isto: ou uma união orçamental ou o fim da experiência do euro tal como a conhecemos. Haveria, claro, uma terceira: um súbito aumento do crescimento económico que varesse as dificuldades para debaixo de tapete. Só que não se está a ver muito bem de onde virá.

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