Um Verão

by Luciano

(Publicado no Diário Económico, 1/9/2011)

O Verão já não é o que era. Dantes, podíamos deixar-nos a torrar na praia tranquilamente porque as desgraças também iam de férias. Este ano não foi bem assim: o Governo dos EUA foi salvo pelo gong de declarar insolvência; a UE produziu mais um plano “histórico” para salvar o euro que não descansou ninguém; por isso mesmo, a Espanha, a Itália e até a França entraram no Expresso da Piguilândia; Merkel e Sarkozy apareceram a tentar travar o comboio, mas não fizeram senão acelerar a velocidade; e, entre nós, tivemos o subsídio de Natal cortado, para além de outras malfeitorias.

Agora que se aproxima o Outono, continua tudo mais ou menos na mesma. Muita gente se tem regozijado com a queda das remunerações das dívidas públicas dos PIGS (alargados, para incluir a Bélgica e a França). Neste aspecto, louva-se em especial a Irlanda, onde a dita remuneração da dívida a 10 anos caiu de 14% em meados de Julho para quase 8.5% agora. Por partes: o que impressionou os “mercados” na Irlanda foi o crescimento forte no primeiro trimestre, em plena aplicação de um violento programa de austeridade. O crescimento deve-se apenas às exportações. Mas trata-se de uma das economias mais competitivas do mundo. A questão sempre foi saber em que medida as exportações compensariam o efeito recessivo da austeridade. O primeiro trimestre é encorajador, mas seria precipitado tirar conclusões definitivas. Acresce que a experiência da Irlanda não se generaliza aos outros países. Todos são pouco competitivos, excepto a França, que ainda o é mas cada vez menos. Mesmo com um bom comportamento exportador, Portugal, por exemplo, nunca conseguirá derivar daí o mesmo resultado, dado o baixo peso das exportações no PIB.

Depois, há que perceber a principal razão por que caem as remunerações das dívidas: as compras activas do BCE no chamado mercado secundário. Mas convém ver que, deste modo, o BCE está a exorbitar do seu mandato, transformando-se numa agência de governos que não conseguem encontrar uma solução política. Não só o sacrossanto princípio da independência dos bancos centrais é mandado às malvas como se cria uma situação incomportável para o próprio BCE.

Claro que vem agora aí a plena aplicação do novo programa de salvação do euro aprovado em Julho, que libertará o BCE destas tarefas de emergência. Mas, primeiro, é necessário que ele passe nos parlamentos nacionais, em especial o alemão, onde as dúvidas são muitas. E depois, é preciso que funcione, o que está longe de garantido.

Em Portugal, ao contrário do que muitas vezes se julga, dependemos menos da aplicação do memorando da troika do que destas evoluções. Bem podemos segui-lo passo por passo. Sem a solução do “problema europeu”, não servirá de nada.

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